sexta-feira, 14 de março de 2008

O povo fala sobre o preconceito

As novelas têm refletido a sociedade em vários aspectos. Assuntos, que antes eram tabus, agora são tratados como outro qualquer. O preconceito é um dos assuntos preferidos dos autores. Na atual novela das 20hs, da Rede Globo, "Duas caras", o casal Júlia (Débora Falabella) e Evilásio (Lázaro Ramos) sofre preconceito por parte do pai da garota, que não admite um rapaz negro e pobre na família. O PRETO NO BRANCO foi às ruas perguntar às pessoas se elas acham que a novela realmente reflete casos da realidade e se isso ajuda acabar com preconceito que ainda existe no Brasil

Fala Povo!

quinta-feira, 13 de março de 2008

O amor não tem cor


Camila Mariane de Souza tem 18 anos, e namora Marcos, rapaz pelo qual é apaixonada. Eles estão juntos há um ano e cinco meses. Como todo casal, tem semelhanças e diferenças.
Porém eles têm uma diferença que pode incomodar outras pessoas. Pessoas estas que nem os conhecem, mas que mesmo assim os julgam e às vezes, até condenam o fato de estarem juntos: Marcos é negro e Camila é branca.
Nossa equipe entrevistou Camila que nos contou um pouco sobre seu relacionamento e ainda deu a sua opinião sobre alguns assuntos relacionados ao preconceito que sofrem.
A primeira coisa que ela nos conta é que, quando o casal começou a namorar, o preconceito era maior, pois Marcos usava um penteado no estilo “black power”. Isto fazia com que eles chamassem mais a atenção: “as pessoas comentavam, riam...”
Este preconceito era mais forte em pessoas mais velhas. Camila ainda diz que, quem tem preconceito, não o expressa só pelo fato de Marcos ser negro, mas sim por acharem que ele é pobre e, por isso, inferior.
Ela acredita que o preconceito vem de berço, que se passa de pai pra filho, igual aos costumes, educação; acha que não há debate sobre as diferenças. É assim e pronto. Não existe o porquê.
E o preconceito não é só de brancos com negros. Há também o preconceito de negros com brancos.


“Existe também o preconceito de negros em relação aos brancos. Eles acham que o ‘branquelo’ não serve para andar no mesmo grupo, pois ele nunca irá escutar as músicas, andar e falar da mesma forma que eles. ‘Lá vem o branquelo pagando de bom’! Acontece sempre”.


Perguntamos a ela o que achava sobre o casal da novela “Duas Caras” – Júlia (Débora Falabella) e Evilásio (Lázaro Ramos) – e se o fato de uma grande emissora como a Rede Globo abordar um tema social ajuda a sociedade a entender e a desmistificar o preconceito existente.
Camila acredita que a novela trata o relacionamento inter-racial de uma forma exagerada, pois Júlia é branca e rica e Evilásio é negro e favelado. “No relacionamento dos dois há outros tipos de preconceito além do racial, porque além de Evilásio ser negro ele também é pobre”. Mas diz que a novela mostra que o casal pode sim, vencer o preconceito e viver momentos felizes.
Camila conhece outros casais que, como ela, sofrem preconceitos por causa da cor. Para ela, o preconceito sempre vai existir, mas o que a deixa aliviada é o fato de existirem pessoas como ela, que admiram a pessoa independente da cor.


”Eu amo o meu neguinho, pois é ele que me faz feliz; é ele que me faz cantar no chuveiro, é ele que me enfeitiçou, é ele que eu quero pra sempre na minha vida, é ele que tira os meus pés do chão. Tudo isso porque a felicidade não tem cor, não tem raça. Ela simplesmente acontece, para quem deixa ela acontecer”.

O Paradoxo do preconceito


Segundo estatísticas do IBGE, a população brasileira é constituída por 54% de brancos, 5,4% de negros, 39,9% de pardos e 0,7% de amarelos e indígenas.
Difícil de se imaginar que num país com uma mistura racial tão intensa, ainda haja traços de preconceito com relacionamentos entre pessoas de diferentes etnias.
Mas é o que acontece. Todos os dias diversas denúncias de pessoas que alegam ter sofrido preconceito em relação a sua cor são feitas.
Essa discriminação, sentida na pele por milhares de brasileiros sempre foi divulgada pela mídia e está atualmente sendo representada na novela da Rede Globo, “Duas Caras”, que desde sua estréia tem atingido a maior média de audiência da emissora.
Os personagens Evilásio (Lázaro Ramos), que é negro e morador de uma favela e Júlia (Débora Falabella), que é branca e de classe média alta não são aceitos pela família de Júlia, que não admite que ela namore um rapaz negro.
Sendo o Brasil um país onde quase a metade da população é parda, essa discriminação se torna um paradoxo, já que os pardos são a mistura dos negros com os brancos. Como pode essa relação que teve como resultado quase 40 % da população brasileira não ser aceita pela população?
Acho que essa é a pergunta que fica para quem se sente no direito de discriminar as escolhas alheias.

O racismo e a formação social

A Rede Globo de televisão está ilustrando na novela Duas Caras, horário nobre da emissora, um preconceito que vem se perpetuando na sociedade brasileira: o racismo. Uma menina branca de classe média alta, Julia (Débora Falabella) se apaixona por um rapaz negro que mora na favela, Evilásio (Lázaro Ramos).
A família da moça, especialmente o pai, se recusa a admitir um romance entre a filha e uma pessoa a qual ele considera inferior. O preconceito contra negros é um problema que tem origem histórica no país. Essas pessoas (da raça negra, especialmente africanos) foram trazidas para o Brasil na condição de escravos, e desde o fim da escravidão elas lutam por um espaço digno na sociedade. Mas por que, em pleno século XXI, esse preconceito continua existindo? Qual o papel que a televisão tem na diminuição ou no aumento desse preconceito?

A equipe do Preto no Branco conversou com a Coordenadora Estadual de Formação do Movimento Negro Unificado, Regina Lúcia dos Santos, para saber o que ela pensa sobre o assunto.


Preto no Branco – Regina, como você vê a representação do racismo na televisão, na novela Duas Caras da TV Globo, por exemplo?

Regina Lúcia - A televisão em si é usada como uma das formas de perpetuar o imaginário popular a cerca da imagem do negro. Então hoje não é por acaso que o negro aparece na televisão brasileira. É devido à luta do movimento negro. A TV diminuía os negros, e hoje é obrigada a colocá-los na mídia. Casais inter-raciais ou casais negros bem sucedidos.
A TV é sim uma forma de continuar a transmitir idéias preconceituosas, perpetuar o ideário racista que existe na cultura brasileira. Na verdade, pode parecer inocente, mas não é inocente. Primeiro assim, quando que o Evilásio vai sair daquele meio pior? Quando ele se junta com uma branca.
A favela é o lugar dele como negro. Quando se junta com a branca é q ele pode conseguir coisas melhores. Isso é implícito. É a sociedade (parte branca) que dá ao negro outras possibilidades, vôos maiores. Outra coisa, por que não um casal de protagonistas negros?
Isso não acontece, só casais inter-raciais. Por que o que esta subjacente a essa idéia é a idéia de que os negros melhoram quando estão acompanhados dos brancos, precisam do branco pra ser bem sucedido. É uma idéia subliminar.



PNB – Você considera que esse racismo seja intencional? Que isso esteja explicito para o autor ou para o diretor da novela?

RL - Do diretor não, não acho que esteja explicito pra ele. Mas a formação dele é racista (igreja, escola, família). A gente não se percebe formado por um ideário racista. A gente só percebe quando a gente sofre o preconceito. Isso não está explicito pra pessoa que escreve, mas a formação dela é racista. O negro é sempre menos, é sempre o empregado doméstico, isso só está explícito pra quem sofre o preconceito. Quando o negro consegue um espaço o qual não é destinado a ele na sociedade brasileira (quando não é subalterno) ele precisa todos os dias avalizar que merece estar lá. A intenção do autor pode até ser boa, mas formado em uma sociedade racista.

PNB – Você acha a representação desse preconceito positiva?

RL - Na novela América, no começo, a mãe da Sol, personagem principal da novela, é despejada de uma favela e o oficial de justiça pega a caixa de brinquedos dela e joga longe, quebrando a cabeça de uma boneca. O Tratorista não permite que a casa seja derrubada e se torna o padrasto da menina.
O oficial é interpretado por Milton Gonçalves, e o tratorista por Paulo Goulart. Essa história é real, mas o tratorista era um negro, e o oficial era um branco que deu voz de prisão ao tratorista por não derrubar a casa.
Quando a TV passa a história pra ficção ela transmuta a realidade. O vilão vira negro e o herói vira branco. O oficial na novela faz algo que jamais faria na vida real, ele joga a caixa longe pra virar, de fato, um vilão. Assim, a televisão faz a manutenção do racismo.



PNB – Na novela Páginas da Vida, tinha uma personagem negra que sofria preconceito da enteada, que também era negra. Como você explica esse racismo de negro para negro?

RL – Os negros reproduzem a educação racista que eles recebem, assim como a mulher reproduz o machismo. O racismo parte de uma formação social, por isso também existem negros racistas.
Parte também de uma falta de informação da parte negra da população sobre sua própria herança cultural. Os negros não têm referência, a referência são os escravos. A criança não se reconhece negra.



PNB – Se a televisão tivesse uma postura diferente em relação ao racismo, colocando situações que condissessem mais ao problema, ela contribuiria para a diminuição do preconceito?

RL - Vamos supor que fosse criada uma televisão grande como a Globo e, do ponto de vista de criatividade, como a cultura, que falasse da sociedade como ela é. Evidente que seria muito bom. A televisão é o maior meio de penetração/comunicação nesse país. Negar isso é inútil.

Regina Lúcia dos Santos tem 53 anos, é formada em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e é coordenadora estadual de formação do Movimento Negro Unificado. Esse movimento completa 30 anos esse ano e, dos que ainda existem, é o mais antigo.

Preto no Branco sem preconceito

O Blog Preto no Branco sem Preconceito surge para mostrar as muitas verdades por trás de um sentimento que o brasileiro tem, mas que nem todos expõem. Nosso país é um país preconceituoso sim, e muitas pessoas que não se dizem preconceituosas olham torto para um casal de cor diferente, comentam a respeito.
Isso fica explícito quando o assunto aparece nos veículos midiáticos e tenta fazer com que as pessoas reflitam sobre seu comportamento e sobre sua formação. Um exemplo é a telenovela. Ela aborda temas sociais muito importantes desde que foi criada e o racismo esteve presente em muitas delas.
A pergunta que fica no ar é: Até que ponto a novela pode ajudar a população que tem algum preconceito a perceber que o diferente é apenas o desconhecido?
Nossa equipe conversou com entendidos do assunto e com gente que sente na pele o que é ser vítima de preconceito e aqui vamos mostrar o que elas pensam sobre o assunto e suas opiniões sobre como a mídia, com enfoque na telenovela, pode fazer com que as pessoas encarem seus medos e conheçam o desconhecido.